Como imaginar a sensação de um ser humano que começa a enxergar o mundo e a infinita diversidade que existe dentro dele, de repente, por “milagre”, depois de uma vida inteira na cegueira total? Que impacto se passa dentro desse ser humano ao desvendar a realidade em seus contornos? 

O significado das ocorrências se firma pelas sensações táteis, olfativas, gustativas e sonoras, mas apenas a visão pode dar sentido real a uma montanha, à vastidão do mar, às nuvens, ao arco-íris, ao voo das aves, às manobras de um beija-flor, à floresta equatorial, ao rio amazônico, à manada de cavalos em disparada, ao elefante e seu filhote. Só os olhos captam a metamorfose entre a juventude e a velhice. De improviso a mãe, o irmão, o amigo, todos, apenas “sonhados”, ganham face e cores reais. E no espelho! Misericórdia... surgem o rosto e o corpo, emprestados à nossa alma.   

E o que são as cores? As mudanças da manhã até noite, o sol e as estrelas. 

Se para uma criança as experiências ocorrem progressivamente, com naturalidade, para quem adquire a visão “por milagre” se abate uma avalanche de descobertas, de novas conexões, revela-se toda a diversidade. Fascinante e, ao mesmo tempo, perturbador olhar para qualquer canto e descobrir pela “primeira vez”. 

O cego de nascença não consegue desenvolver a linguagem facial; os mais variados sentimentos quase não conseguem alterar as expressões do rosto e provocar gestos das mãos. A insegurança, o temor, o espanto, a curiosidade, a contrariedade, o agrado, como a tristeza, pouco ou nada alteram as linhas da face. A direção do rosto se volta para uma constante e imutável escuridão. 

Tenho notado a dificuldade de comunicar dos que têm deficiência visual e, ainda, a necessidade de recolhimento no mundo que lhes é próprio. A necessidade de compartilhar experiências entre eles, aqueles que comungam a mesma situação e conseguem se entender. 

Quem nunca viu sorrir alguém não tem modelos a seguir para expressar a alegria no rosto. Tende a se isolar, a criar seu habitat reservado e intransponível. 

Tive há poucos dias a satisfação de visitar uma jovem de 16 anos no seu segundo dia de uma nova vida, que, por graça de Deus, ajudei a realizar o milagre de ver. 

A história dessa “visão adquirida” começou no dia 21 de fevereiro de 2018, quando Lula, antes de ser condenado e preso, em seguida libertado e absolvido, veio em caravana a Betim. Sua equipe marcou evento no teatro da Colônia Santa Isabel, em Citrolândia, distrito do município, antiga colônia de hansenianos. Recebi o convite, e o que fazer? “Ir ou não ir?” Como primeiro cidadão do município, a visita de um ex-presidente e do governador em exercício a um local público de tanta significação impunha a presença. Mais ainda com o resultado das eleições de 2016, que me deram maioria absoluta no distrito, tradicional reduto petista. Apesar da presença do ex-presidente (que nunca apoiei em eleição) ladeado da nata do PT, que me espinafrou caninamente a vida toda, a recusa seria considerada uma descortesia, um gesto de medo e temor. 

Fechei olhos e ouvidos, contrariei as apostas de quem não gostaria de me ver lá. Cheguei na hora certa, sem escolta e sem colete à prova de bala. Apenas com um assessor, o fotógrafo para registrar a agenda oficial. Como o atraso da caravana se prolongava de hora em hora, fiquei na multidão entre olhares controversos, conferindo o frisson entre os presentes. 

Nesse meio surge uma mulher negra, com seus 40 anos, que me aborda e começa a explicar que os prefeitos anteriores nunca deram atenção a ela em promover o tratamento da filha, de 13 anos, cega de nascença. Disse que haveria uma possibilidade, primeiramente com uma série de cirurgias complexas, de a filha adquirir a visão, colocando, em seguida, lentes de contato especiais. Mostrou a receita já antiga de alguns anos. 

Na mesma semana fui à casa dela e conheci Julia. Ouvi as várias tragédias que se abateram sobre a família e até a morte por atropelamento da outra irmã, de 18 anos. 

De 2018 para cá, a Prefeitura de Betim montou um setor de oftalmologia com 30 especialidades cirúrgicas, realizou, antes de a pandemia iniciar-se, em 2020, um mutirão de 5.000 cirurgias de catarata, zerou atrasos de anos e conseguiu atender até a complexidade do caso de Julia. Na última segunda-feira, ela ganhou as sonhadas lentes (que o SUS não forneceu) e completou a última etapa, que culminou com a visão do mundo. 

Já no dia seguinte, terça-feira, queria me conhecer com seus olhos e agradecer pelo “milagre” que começou num momento inesquecível. Cheguei, assim, mais uma vez, à casa humilde, onde continua morando, para encontrar a alegria exuberante da família inteira. Indescritível. Julia, emocionada, agradeceu, tentando acenar um sorriso, que seus músculos faciais ainda não aprenderam para demonstrar a imensa felicidade que me descreve com palavras. 

Quantos casos assim pelo Brasil afora? Quantas vidas no aguardo de ganhar asas com uma saúde pública que funcione de verdade? 
 

 

 

 

Fonte: Artigo reproduzido da edição de O Tempo, 18.setembro.21, pág 2, autoria de Vittorio Medioli