Não há como escrever sobre outro assunto. O desastre de Brumadinho, maior perda de vidas humanas de todos os tempos em Minas Gerais, derramou a tragédia sobre as famílias de centenas de vítimas e sobre o vale do Paraopeba, criminosamente devastado.

Já morreram todos os peixes, que, em busca de oxigênio, são levados ao suicídio, jogando-se para fora das águas à procura de uma improvável alternativa. Também estão morrendo os animais que vivem em seu leito e bebem suas águas tóxicas. Quem chega à beira do rio já se depara com a devastação irrecuperável.

Como pode se chegar a isso? Como pode uma empresa abastada de bilhões em lucros e quadros técnicos regiamente pagos não ter evitado uma sequência de horrores? Pior: como pode ter agravado as perdas pela incúria injustificável, o desleixo e a irresponsabilidade criminosa? Como não preparar medidas mitigadoras das consequências, alternativas, vias de fuga? Como repetir e agravar o espetáculo de incompetência bestial no trato com seus empregados, com a comunidade e com seus negócios? Como manter escritórios, refeitórios e concentração de funcionários aos pés de uma barragem considerada de risco, erguida com as mesmas técnicas da estrutura de Mariana? Como persistir com barragens a montante, mais baratas e comprovadamente mais instáveis que as de tipo a jusante? Uma segurança a mais teria impactado tanto assim o lucro por tonelada, que é vendida por valor muitas vezes superiores ao custo de extração?

Tantos absurdos não são fortuitos, germinam de uma cultura bestial, descomprometida com as vidas, o meio ambiente e o entorno de seus empreendimentos. Uma tendência predatória, que deixa rastros de sofrimento e de mortes evitáveis, sem um mínimo de amostras de preocupação com o social, com a qualidade de vida ou com a sustentabilidade.

Veja-se o exemplo de Itabira, cidade em estado lunar, explorada até o osso pela Vale, contando com o maior número de suicídios de Minas e do Brasil. Uma cidade sugada e espoliada que não recebeu de volta uma milionésima parte do que cedeu de suas riquezas naturais. E Mariana? Passados três anos de seu aniquilamento, a Samarco, controlada pela Vale, não cumpriu com nada do prometido. Impunidade, indignidade e falcatruas, apesar de lucros bilionários. Para que serve ganhar dinheiro dessa forma?

Os Emirados Árabes ganham mundos de dinheiro com a extração de pouco esforço, mas investem em obras fantásticas, inovadoras, para a população aproveitar. O que a Vale deixou em Itabira e Mariana? O que deixará para Brumadinho? Um rastro vergonhoso de destruição? Sem qualquer progresso social, cultural ou econômico, as cidades seguem marcadas pela decadência e pelas dificuldades.

Na condição de empresa estatal, a Vale consumia aportes do tesouro nacional e recolhia impostos insignificantes. Era um oásis para dinastias políticas sedentas de cargos, vantagens e poder. Como empresa privada, se transformou numa máquina de gerar lucros monumentais. O lado positivo, como instituição privada, é que começou a contribuir com arrecadação polpuda para os cofres públicos, numa dimensão centenas de vezes maior que seu preço de venda em leilão. A Vale não é empresa de milagres, está apenas cumprindo com sua obrigação. Dispõe das melhores jazidas do planeta, que garantem as melhores margens de venda mundo afora.

Tem muita gente revoltada com a Vale, e me incluo. Ela é hoje uma empresa que não sabe gerar o bem, a satisfação da população, apesar de ter tudo à sua disposição para dispensar com abundância o progresso e a felicidade. Transformou-se numa fábrica de desgraças incalculáveis. Mesquinhamente conduzida, de costas para a população e o Estado de Minas Gerais.

Não se explica de outra forma o que fez nos últimos dias. Sobrevoando o local da desgraça apenas três horas após a queda, na sexta feira, 25.01, o quadro era de uma massa de rejeitos consolidada, densa e sem movimentos, cobrindo a bacia do córrego do Feijão. Uma infinitésima parte dos rejeitos chegava ao leito do Paraopeba.

Já dois dias depois, a secura do córrego se transformou num lamaçal que escorria córrego e rio abaixo. Essa ação decorria do vazamento deliberado pela Vale de 4 bilhões de litros de água contidos num reservatório que ameaçava se romper. Tudo bem se livrar da água, mas despejá-la sobre os resíduos consolidados significava levar rejeitos para o Paraopeba e desgraçá-lo todo. E deu nisso.

A decisão de liberar essa imensa massa d’água evidencia ainda mais o antropofagismo da empresa, que, com seus bilhões de lucros, não preparou o enfrentamento dessa situação previsível. Com apenas um pouco de planejamento, cuidado e alguns parcos investimentos, poderia ter bombeado as águas na cratera da própria lavra de extração ao lado, sem invadir o córrego do Feijão. Da profunda cratera, já diagnosticada como paralisada por dois anos, haveria como levar a água ao Paraopeba com uma modesta tubulação e alguns míseros milhões de reais. Evitaria a morte de um vale inteiro.

E o que dizer dessas empresas de consultoria, nacionais e estrangeiras? São, na verdade, certificadoras da incompetência.

Também ficou claro, ao longo da última semana, que o método de alteamento da barragem a montante, consagrado nas normas de Minas Gerais, onde a Vale manda e desmanda, se trata de fator de desgraças, embora amplie lucros que já são estratosféricos.

A Vale, seja quem for o controlador e acionista, é um patrimônio do Brasil, e como tal tem que ser vista. Não apenas para aplicar multas que, como no caso de Mariana, são devoradas pelo Estado perdulário sem atingir a população, mas especialmente para garantir a correção de suas falhas e a distribuição de dividendos sociais e econômicos ao país.

A Vale carece, de imediato, da intervenção externa. É extremamente importante, para o futuro e para o bem do Brasil, garantir a reparação dos estragos que provocou.
 
Artigo publicado em Jornal O Tempo em 03/09/2019
 
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