23 de outubro de 2018

Não somos uma monarquia

Não somos uma monarquia

Por Luiz Tito

Publicado as 02/10/2018 15:43:22

Assisti noutro dia a um amigo, pai de dois filhos, perguntando a ambos em que candidato votariam para a Presidência da República. Os filhos manifestaram suas preferências, acrescentando, juntos, que alguns de seus amigos “só queriam saber de puxar um baseado”. Por isso e por não concordarem com tal postura (o que tem a retumbante aprovação deste que assina o presente artigo), iam votar em determinado candidato. Ótimo.

No Norte de Minas, num grupo de WhatsApp em que se trocam informações sobre a chuva que nunca vem, sobre o preço da arroba de boi, do litro de leite, a seca e assuntos similares, falar que se vai votar noutro nome diferente daquele que – o grupo espera – tudo recolocará em ordem e progresso é, no mínimo, despertar as mais repulsivas e grosseiras reações, incluindo más avaliações sobre o comportamento da mãe de quem achava que pudesse pensar diferente.

Nos centros urbanos, serve ainda votar em tal candidato para resolver, além de tudo, o desemprego que avilta cidadãos, o escorchante preço dos combustíveis, os criminosos juros bancários, a insegurança nas cidades e no campo, a precariedade do ensino nas escolas públicas, inclusive naquelas onde desconfia-se de professores que ensinam às crianças o sexo de todas as posições, com requintes, em aulas práticas e segundo uma cartilha própria, concebida em governos passados. É o que dizem e querem coibir.

Pelo mesmo voto será ainda resolvida a fila nos hospitais, nos postos de saúde e nas farmácias populares. Nenhuma tolerância será concedida à baixa qualidade das decisões do Congresso Nacional e das demais Câmaras legislativas, bem como do Judiciário em qualquer instância, por ser um Poder que – assim se acusa – decide com os olhos e a cabeça nas teses do pensamento comunista. Além disso, anseia-se o forte combate sem qualquer indulgência ao enriquecimento ilícito e à corrupção, em todos os níveis de interesse ou onde esteja o poder público. Eu também espero.

Não há dúvidas sobre o que pensa, apoia e deseja qualquer cidadão de bem neste país. Temos, todos – os normais pelo menos –, a mais urgente e indeclinável aspiração por uma nação progressista, justa e amplamente democrática, com compromissos especialmente ajustados como dever natural do Estado. Sem favores e concessões de qualquer nível. Pede-se pelo império da lei, da ordem constitucional, expressos tais valores no acesso da sociedade, independentemente de qualquer circunstância ou característica, ou sexo, ou cor, ou partido, ou crença, a tais entregas públicas. Sem corrupção, sem privilégios de qualquer ordem e sem impunidade para os que fraudarem direitos e deveres.

Parece que não se diverge nisso. A grande massa quer e repudia, com pequenas variações, as mesmas coisas. As diferenças estão na forma de se tornarem realidade tais aspirações. Quando o debate migra das ideias e admite que as soluções estão resumidas em uma pessoa, um presidente, e não um monarca, dá-se as costas ao princípio de harmonia dos Poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário. Não há bom governo, por mais bem-intencionado que seja, sem um Congresso decente, construído com a experiência e o compromisso de seus membros para com o interesse coletivo; e um Judiciário formado, moral e tecnicamente, por magistrados com espírito de justiça. Então, tenhamos zelo na escolha do próximo Congresso. Ou nos preparemos para decepções sem volta.


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