16 de novembro de 2018

CREMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA

CREMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA

Por Luiz Tito

Publicado as 04/09/2018 12:14:42

O incêndio que no último fim de semana vitimou de morte a cultura brasileira, liquidando o prédio e quase a totalidade do acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, retrata com fidelidade o trato que se dá pelo poder público a nosso patrimônio histórico e cultural. Sendo o mais antigo e o maior e representando para o mundo uma referência por seu acervo científico, de história natural e de antropologia do Brasil, com mais de 20 milhões de itens, tendo completado 200 anos de sua fundação, o Museu Nacional foi consumido pelo fogo sem que os bombeiros tivessem condições as mais elementares para aplacar a irreversível tragédia que se consumou em poucas horas.
Primeiramente, a questão dos recursos empenhados pelo BNDES para que a Associação dos Amigos do Museu Nacional pudesse empreender os reparos necessários a sua preservação e manutenção: R$ 21,7 milhões aprovados como uma potencial ajuda, mas não liberados em razão da burocracia que transferiu para outubro a entrega da primeira parcela, no valor de R$ 3 milhões, desse novo contrato. Informações revelam, contudo, que o museu já havia recebido R$ 24 milhões para custear as duas primeiras etapas do “Plano de Investimento para Revitalização do Museu Nacional”. O novo contrato, este de R$ 21,7 milhões, estaria destinado ao custeio dos reparos e recuperação física dos prédios, bem como investimentos – pasmem – na rede elétrica e nos equipamentos de prevenção de incêndio. O museu estava funcionando, mal e porcamente, porque tais reparos eram demandas antigas e sempre urgentes, e, se não foram feitas, que se interrompesse a operação do museu. Seria o lógico.
Ninguém falou onde e como foram gastos os R$ 24 milhões anteriores, que não foram empregados em segurança, tampouco em prevenção de incêndio, que são atividades que convivem com o dia a dia de todo museu que se preze em qualquer lugar do mundo. O que comprova tal desídia, além de outros fatos, é, por exemplo, a realidade de que em prédios dessa importância e perfil, com quase 14 mil metros quadrados de construções facilmente inflamáveis, estavam de plantão apenas quatro vigilantes – quatro –, cuidando da segurança de tal área.
Comunicados de que ocorria o incêndio no museu, bombeiros (bombeiro é um funcionário público que funciona no Brasil) gastaram apenas 34 segundos para sair de seus quartéis. Foram com tudo para a missão que os esperava, mas em vão. Os hidrantes do museu não estavam abastecidos. Hidrantes secos, o que atrasou obviamente, e jogou por terra, toda a dedicação e espírito obreiro dos bombeiros.
O Museu Nacional do Rio de Janeiro já não existe mais; o que sobrou, como resultado dos 200 anos de sua existência e dedicado trabalho de cientistas e historiadores, é nada. Em dezembro de 2015, pelo mesmo descuido, foi-se o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo; coincidentemente, um incêndio das mesmas proporções o destruiu. Qual será o próximo?

(ARTIGO PUBLICADO PELO JORNAL O TEMPO, PAG 2, EM 04.SETEMBRO.2018)


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